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	<description>Núcleo de Estudo e Pesquisa Histórica</description>
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		<title>O Congresso Católico em Itajubá 1933</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 02:13:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nephis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Ação Católica promoveu em Itajubá um Congresso para comemorar a 1900ª passagem da Paixão de Cristo. O Congresso também estabeleceu diretrizes para a religiosidade católica na região nos próximos anos. Realizado em um período de crises e mudanças no Brasil é possível capturar um rico momento da História local ao analisar o regulamento do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Ação Católica promoveu em Itajubá um Congresso para comemorar a 1900ª passagem da Paixão de Cristo. O Congresso também estabeleceu diretrizes para a religiosidade católica na região nos próximos anos.</p>
<p>Realizado em um período de crises e mudanças no Brasil é possível capturar um rico momento da História local ao analisar o regulamento do Congresso postado no link abaixo.</p>
<p><a href="http://nephis.org.br/wp-content/uploads/2012/01/congresso-catolico.rar">congresso catolico</a></p>
<p>Foi também por causa do Congresso Católico que nasceu o Jornal O Semeador, cujos exemplares estão agora postados na íntegra diversos números digitalizados e são agora um rico acervo a disposição dos pesquisadores da História de Itajubá e região.</p>
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		<title>Lançamento do Livro sobre a Usina Luiz Dias</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 17:28:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nephis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O professor Benedito Carmo da Silva Junior concedeu uma entrevista para o Canal 20 de Itajubá no dia 03 de novembro de 2011, onde relata um pouco da História da Usina Luiz Dias. O livro cujo título é Usina Luiz Dias 95 anos de desenvolvimento contou com sua pesquisa histórica e redação do texto referente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O professor Benedito Carmo da Silva Junior concedeu uma entrevista para o Canal 20 de Itajubá no dia 03 de novembro de 2011, onde relata um pouco da História da Usina Luiz Dias. O livro cujo título é Usina Luiz Dias 95 anos de desenvolvimento contou com sua pesquisa histórica e redação do texto referente à parte histórica da empresa que fundou a usina, a Companhia Industrial Sul Mineira.</p>
<p>Veja a entrevista na íntegra:</p>
<p><iframe width="500" height="375" src="http://www.youtube.com/embed/viEmHCA5Hvs?fs=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A cultura popular no contexto de Rabelais</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 03:10:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nephis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[A cultura popular no contexto de François Rabelais na visão de Mikhail Bakhtin Benedito Carmo da Silva Junior 1. A apresentação do problema Para se compreender os livros de François Rabelais é necessário ter uma reformulação radical de todas as concepções artísticas e ideológicas. Também exige a capacidade de desfazer-se de muitas exigências do gosto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://nephis.org.br/wp-content/uploads/2011/10/cultura1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-247" title="cultura" src="http://nephis.org.br/wp-content/uploads/2011/10/cultura1-300x212.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></p>
<p align="center"><strong>A cultura popular no contexto de François Rabelais na visão de Mikhail Bakhtin</strong><strong></strong></p>
<p><strong><em>Benedito Carmo da Silva Junior</em></strong></p>
<p>1. A apresentação do problema</p>
<p>Para se compreender os livros de François Rabelais é necessário ter uma reformulação radical de todas as concepções artísticas e ideológicas. Também exige a capacidade de desfazer-se de muitas exigências do gosto literário e que estão profundamente arraigadas. Necessita também de uma revisão das noções e uma investigação dos domínios da literatura cômica popular.</p>
<p>Os modernos estudos sobre a cultura popular propõem a redescoberta e a revisão das formas do riso na formação cultural e folclórica. Durante muito tempo estas formas cômicas foram excluídas dos estudos tanto da literatura quanto da História. Antes desprezados agora são valorizados, pois como objeto de estudo, o riso não se encaixava nas formas oficiais e sérias que se embasavam nos documentos e manifestações representativas da ordem vigente.</p>
<p>O contexto do Renascimento no século XVI nos trás uma oposição entre a cultura oficial e a elaborada nas camadas populares. Os livros de Rabelais são de fato uma ponte entre o oficial e o popular, pois suas obras revelam a complexidade de uma sociedade dominada pela tradição feudal e religiosa que pregava a ordem hierárquica e imutável do mundo.</p>
<p>Numa primeira etapa o oficial e o cômico convivem lado a lado desde os tempos antigos, passando pelas saturnais romanas, era costume nas festas satirizar e escarnecer os perdedores, o riso também estava presente até mesmo nas celebrações fúnebres.</p>
<p>Na medida em que se consolida uma ordem de classes e o Estado se fortalece, estabelece uma ruptura e fica impossível equiparar o cômico e o oficial atribuindo os mesmos direitos. O riso parte para um caminho não oficial, torna-se complexo e muda seu sentido para se transformar em uma forma única de expressão da cultura popular de ver e sentir o mundo.</p>
<p>Por outro lado, o aparelho da ordem dominante, procura enquadrar o cômico destinando datas e épocas específicas para sua manifestação. Esta tolerância busca de certa forma fortalecer o controle e impor uma hierarquia tendo como base a religião cristã e os estamentos feudais. A liberação temporária permitia assim o desenvolvimento de um tipo especial de comunicação, inconcebível nas situações normais do cotidiano.</p>
<p>A obra de Rabelais trata de revelar estas formas especiais de vocábulo, seus gestos e que sempre estavam mais visíveis na praça pública, onde comerciantes e artistas mambembes estabeleciam interações entre a população unindo os indivíduos e abolindo toda a distância entre eles. Essa proximidade dava identidade ao popular onde se liberava das normas correntes de etiqueta e da decência.</p>
<p>A evolução das manifestações populares na praça pública e a sua complexidade encampava uma oposição à imutabilidade estabelecida pela Igreja. Deste modo, a expressão cultural popular necessitava ser dinâmica, mutável, flutuante e ativa. Por isso a linguagem carnavalesca está repleta de símbolos de renovação e alternância. Ela se caracteriza pela lógica original das coisas no avesso, do contrário, das trocas constantes do alto e baixo. A figura da roda que ao girar muda constante o sentido do que está acima e abaixo, ou seja, a face e o traseiro. Isso encerra num mundo onde as formas travestis, as degradações, profanações, coroamentos e destronamentos são comuns, expressas numa paródia do mundo ao contrário a uma ordem oficial, passando assim uma visão positiva do mundo. Muito diferente da visão moderna da paródia, onde predomina uma visão negativa dessas formas degradantes. Sendo assim, a cultura popular desenvolvida na Idade Média e retratada no período do Renascimento, expõe a forma dúbia de ver o mundo em uma sociedade que nega as formas cômicas e as utiliza renovando ao mesmo tempo.</p>
<p>2. A História do riso</p>
<p>A análise da obra de Rabelais se enquadra na comparação das opiniões dos autores do século XVI como divertida, agradável e fácil de compreender. Esta visão se explica pela aceitação do riso dentro do estilo literário e cultural na sua forma positiva. As manifestações cômicas e grotescas estavam num contexto de ampla contribuição para a literatura e cultura abrangendo as mais variadas esferas da população, principalmente na França.</p>
<p><em>No Renascimento, o riso tem um profundo valor de concepção do mundo, é uma das formas capitais pelos quais se exprime a verdade sobre o mundo na sua totalidade, sobre a História, sobre o homem, é um ponto de vista particular e universal sobre o mundo, que percebe de forma diferente, embora não menos importante do que o sério, por isso a grande leitura deve admitir da mesma forma que o sério. Somente o riso pode ter acesso a certos aspectos importantes do mundo.</em></p>
<p>No século XVII com a consolidação do Estado Moderno e do Absolutismo, o riso é relegado a compreensão de certos fenômenos parciais típicos da vida social. Constitui gênero menor, descrevendo indivíduos isolados ou estratos mais baixos da sociedade. Deste modo, as manifestações cômicas são vistas no seu sentido negativo, rompendo um processo de influências mútuas que caracterizou o popular e o oficial no que se refere às tradições festivas medievais.</p>
<p>Sendo assim os quatro livros de Rabelais se situam no limite do início deste processo de separação, descrevendo assim as experiências acumuladas em mil anos de tolerância e troca entre a tradição pagã com raízes na Antiguidade e a ordem feudal cristã que se consolidava na Europa.</p>
<p>As influências do cômico e da bufonaria na obra de Rabelais provêm de escritores da Antiguidade Clássica e são basicamente três. A primeira é do romance de Hipócrates onde Demócrito desenvolve a doutrina curativa do riso. A segunda é de Aristóteles em sua obra que afirma ser o riso próprio do ser humano, por ser o único ser vivente que ri. A terceira é de Luciano no seu Diálogo dos Mortos, onde o riso é encontrado em diversas situações na passagem das almas para o mundo inferior, ou o inferno.</p>
<p>Estas influências descrevem as mais importantes características do rebaixamento corporal, onde o sentido de ambivalência (renovação e morte) é constante. Desta forma as alusões ao nascimento à vida onde a doença é uma constante e a morte que é inevitável para todo o ser humano, junta se ao riso. Para o homem medieval fica fácil assimilar o riso, pois ele pertence a todas as fases de sua vida.</p>
<p>Por outro lado, ainda na Antiguidade se inicia um processo de exclusão do riso das esferas oficiais da ideologia principalmente por parte da Igreja. O cristianismo pregava o combate aos espetáculos antigos, principalmente o mimo, o riso mímico e as burlas.</p>
<p><em>O riso não provém de Deus, são emanações do diabo dizia São João Crisóstomo. O cristão deve conservar a seriedade constante, o arrependimento e a dor em expiação dos seus pecados. </em></p>
<p>Mas não foi um processo curto e nem contínuo, existiram períodos de convivência legal, onde eram extremamente toleradas, períodos de existência semilegal, onde eram obrigadas a obedeceram certas regras e prazos de duração e os períodos de ilegalidade, onde eram combatidas e reprimidas. Outra característica é a não uniformidade destas três fases pela Europa, variando de lugar para lugar. Rabelais está inserido num contexto do Renascimento francês e mesmo assim as partes da França de seu período apresentavam diferenças.</p>
<p>Uma apologia do século XVI comparava o cômico e a burla como uma válvula de escape, fazendo analogia ao tonel de vinho que fechado sua fermentação representava a piedade e temor divino e que para que não explodisse era necessária a entrada de ar fresco, o riso e a bufonaria, que nessa visão era a segunda natureza humana inata ao homem, ou seja, adquirida pela convivência entre uns e outros.</p>
<p>Sendo assim podemos exemplificar como que ao longo do tempo esta tolerância variou, variando também o sentido das festas e das formas cômicas que nelas se apresentavam. Completando assim o histórico do processo de separação do riso das formas oficiais, sobretudo na Igreja onde formas cômicas conviviam lado a lado com as formas canônicas.</p>
<p>A festa dos loucos era celebrada no dia de Santo Estevão, no dia dos Inocentes, Da Trindade, De São João. Na França os rituais consistiam na inversão paródica do culto oficial que incluía máscaras, fantasias e danças obscenas, estes ritos são quase todos eles degradações grotescas dos diferentes cultos e símbolos religiosos transpostos para o plano material e corporal, abrangendo glutonaria e embriaguez no próprio altar, gestos obscenos e desnudamento.</p>
<p>A festa do Asno que faz uma referência a fuga de Maria levando Jesus para o Egito, mas o personagem principal é o asno e o seu relincho. A celebração do asno é um símbolo antigo que lembra o baixo material e corporal, ele comporta um valor degradante (morte) e regenerador (vida).</p>
<p>Outros exemplos podem ser encontrados nas variações das festas dos loucos e do asno, como o carnaval e as charivaris que guardavam relações com rituais agrícolas e pagãos e que durante a institucionalização da Igreja Católica sofreram um processo de ora tolerância ora combatividade. Entretanto estas festas ganharam um sentido diverso dependendo do nível de interação com a autoridade religiosa no poder na época.</p>
<p>Por outro lado, a influência na cultura religiosa oficial também foi registrada, pois o riso estava presente nas principais celebrações cristãs. O riso de natal celebrava o nascimento e no entendimento popular a renovação. O riso pascal ao celebrar a morte de Cristo, lembrava que após um período grande de privações e penitência havia a permissão para rir.</p>
<p>Em todas as festas onde o riso estava inserido, predominava também o exagero do comer e beber desenfreado, onde a satisfação das necessidades corporais era acompanhada de muita bufonaria. Nas festas do trono e nas congregações que celebravam os antigos doadores a referência à morte também era constante no ritual da festa e se refletia nas expressões. Os dominicanos do século XVI, após muita fartura homenageavam seus antigos mortos congregados com a expressão: <em>“Viva el muerto”.</em></p>
<p>Havia também festas com pretexto religioso que mostravam a ambiguidade e a troca de valores culturais, a festa de São Miguel e São Martim foi introduzida no outono como santos protetores dos vinhedos, porém a tradição popular vestia os santos com vestimentas pagãs báquicas, o deus romano do vinho. Às vezes o que era particular de um santo dava pretexto para a realização de rituais materiais e corporais degradantes.</p>
<p><em>Em Marselha no dia de São Lázaro, todos os cavalos, mulas, asnos, touros e vacas desfilavam em procissão pela cidade. Toda a população se fantasiava e executava a “grande dança” (Magnum tripudium) nas praças públicas e nas ruas. Isso porque a personagem de Lázaro estava ligada a um ciclo de lendas sobre os infernos, que possuíam uma conotação topográfica material e corporal (os infernos=”baixo” material corporal), e ao motivo da morte e ressureição. Assim esta festa retomava muitos elementos dos antigos rituais pagãos.</em><em></em></p>
<p>Desta forma a essência do riso festivo liga-se na ideia de alternância que pode ser sentida nas estações do ano, as fases solares e lunares, mas também na morte e renovação da vegetação e na sucessão de ciclos agrícolas. Deste ponto de vista é fácil entender o carácter positivo do riso, pois coloca toda ênfase no novo que vai chegar, trazendo coisas boas. A expectativa era de abundância material, um futuro melhor da mesma forma que as saturnais romanas significavam um retorno à idade de ouro. Graça a esta ideia a festa medieval tinha duas faces: uma que olhava o passado, oficial e que servia para consagrar a ordem vigente. A outra festiva popular e risonha que olhava o futuro e vivia o deboche nos funerais do passado e do presente. Opunha-se deste modo a imutabilidade conservadora do regime e das concepções estabelecidas, colocando ênfase na alternância e na renovação, inclusive no plano social e histórico.</p>
<p>A manifestação do riso, seu meio concreto e organizado dentro das festas era a paródia. A ideologia oficial era o alvo das comparações cômicas no meio popular. Sem apelar para o lado depreciativo das imperfeições dos cultos religiosos, da organização da Igreja ou da ciência escolar ensinada nas universidades. Para os parodistas o riso é universal como da mesma forma a seriedade, porém, o riso é uma concepção de mundo que abrange o todo. É a visão do mundo festivo em todos os seus níveis, uma segunda revelação através de jogos e do riso.</p>
<p><em>Nos séculos a partir do XI, as paródias trazem para o jogo cômico todos os aspectos da doutrina e do culto oficiais e, de maneira geral, todas as formas de comportamento sério em relação ao mundo. Conhecemos várias paródias das orações mais importantes: Patter Noster, Ave Maria, Credo; assim como algumas paródias de hinos (por exemplo, o Laetabundus) e de litanias. Os parodistas não recuaram diante da liturgia. Conhecemos a liturgia dos bêbedos, a liturgia dos jogadores, a liturgia do dinheiro. Existem também evangelhos paródicos: o evangelho do marco de prata, o evangelho de um estudante parisiense, o evangelho dos beberrões, e ainda das regras monacais, dos decretos da Igreja e das constituições e concílios, das bulas e mensagens pontificais, dos sermões religiosos. Encontramos muito cedo, desde os séculos VII e VIII, testamentos paródicos (como o do porco, do asno), epitáfios paródicos, da gramática paródica. Havia finalmente paródias dos textos e leis jurídicos.</em><em></em></p>
<p>Uma oposição ao poder, onde o riso é utilizado como forma de desconfiança da ideologia oficial. Uma arma inocente, festiva e que jamais foi convertida a ordem vigente de sua época. O poder exerce a função de opressão e limitação e se expressa interiormente pelo medo, pela fraqueza, pela docilidade, pela hipocrisia, pela mentira e, sobretudo, pela violência, como a ameaça, a intimidação e interdição. Entretanto, essa relação era de troca e não de confrontação, pois as formas cômicas eram exercidas por pessoas que conviviam debaixo dessa ordem opressora e nela acreditavam com muita sinceridade.</p>
<p>Aos poucos o riso foi saindo do isolamento das festas e atingindo um espaço na literatura. No período de crescimento das cidades medievais, esta forma de cultura popular passou a ser tratada como epopeia pelos escritores e atingiu seu ápice no contexto do Renascimento do século XVI com Rabelais. A paródia literária, com forte conotação popular, foi intensa nesta época. Utilizando as características do cômico até mesmo os protestantes lançaram mão como uma forma de se opor à ordem da Igreja.</p>
<p>A complexidade dos livros de Rabelais abriu espaço para interpretações diversas do riso. Após um período de grande aceitação na grande literatura do século XVI, o cômico e o grotesco iniciou um longo processo de reinterpretações que foi relegando este estilo ao lazer e divertimento a uma repulsa pelas características vulgares e degradantes.</p>
<p>Um dos exemplos desta nova visão foi a introdução do método histórico-alegórico a partir do século XVII. Ele consiste em dar significações a passagens da obra de Rabelais de acordo com uma forma primitiva de ciência empírica que tipificava, generalizava e abstraía de acordo com as concepções racionalistas e que se estenderam os iluministas do século XVIII. Disso resulta uma nova forma de ver e reorganizar o modelo de mundo. Neste novo modelo o fato isolado ganha valor incontestável, gerando as características do documentarismo primitivo.</p>
<p>Esta forma de interpretação expurga da obra de Rabelais o inteligível, o supérfluo e o mau gosto popular, isolando estas manifestações populares em seu tempo. A tentativa de purificação do seu sentido se explica pela necessidade em traduzir o mundo em estado estático, imutável, em consonância com a ideologia oficial da Igreja e dos regimes absolutistas da época.</p>
<p>Uma interpretação diferente obteve Rabelais na Revolução Francesa, onde foi destacado seu lado paródico, porém errôneo, da oposição entre os suntuosos gastos com vestuário e comida do gigante Gargantua representando uma nobreza indiferente ao sofrimento e à miséria do povo. Sendo assim da mesma forma que os iluministas os revolucionários destacaram a lado negativo da obra Rabelasiana.</p>
<p>Um destaque a esta grande concepção de um mundo provocada pelo riso é uma comparação de seu uso em obras literárias na Antiguidade e na Idade Média e Moderna. Enquanto na Antiguidade o riso coexistia com as formas sérias e oficiais, como por exemplo, no teatro grego. No período medieval e moderno o que se observou foi uma combatividade às formas cômicas, com destaque ao seu lado negativo e a sua exclusão.</p>
<p>Mas se no século XVIII, a análise da obra de Rabelais não era compreendida em temos históricos, onde a separação entre negação e afirmação não se faziam compreender o carácter ambivalente do riso popular. Os românticos franceses do século XIX inovaram ou introduzir na interpretação das obras de Rabelais, a ideia de mobilidade ao tempo. Eles afirmavam que ele fazia parte de um grupo seleto de escritores que plantou os germes do futuro e eles seriam o farol que iluminaria a humanidade. Este aspecto positivo dá um aspecto histórico ao modo de ver a época e o futuro, justificadas no grotesco e no grotesco fantástico, compreendidos como forma de ver e capturar o tempo e a realidade. Por outro lado, isso demonstra o lado negativo, pois ele introduz uma concepção idealista do mundo, uma má compreensão das fronteiras da consciência subjetiva. Isso leva o romântico a acrescentar mais à realidade do que realmente ela contém.</p>
<p>No século XX, apareceram inúmeros trabalhos com rigor positivista centrados em um rigor documental, que é útil, mas limitado de um método de visão ampla do passado cultural e suas inúmeras interpelações. Um dos primeiros a tentar analisar o contexto cultural do mundo de Rabelais foi Febvre. Seu livro analisa apenas os aspectos literários da obra de Rabelais, deixando escapar as relações da cultura popular, seu universalismo e as suas ambivalências. Um ponto positivo é a sua crítica ao anacronismo do historiador em compreender este mundo com suas concepções contemporâneas.</p>
<p>3. O vocabulário da Praça pública</p>
<p>Da mesma forma que o riso as formais verbais também estavam relacionadas com o rebaixamento corporal. Conhecidas desde o século XVIII como o encanto da canalha e suja corrupção por La Bruyère ou conjunto de impertinências e grosseiras porcarias descritos por Voltaire. Bahktin prefere simplesmente denominar como o vocábulo da praça pública.</p>
<p>O surgimento deste tipo de manifestação cultural tem sua raiz no campo e se disseminou nas feiras de comércio dos centros urbanos medievais onde os camponeses vendiam seus produtos e todo tipo de gente trocava experiências de vida.</p>
<p>Uma das expressões trazidas do campo para a cidade se referia ao salpicar de lama. Originalmente ligada à semeadura de primavera de novas colheitas e da celebração do novo, seu sentido positivo se dissemina relacionando-se ao vocábulo escatológico e grosseiro do falar na praça. Deste modo salpica-se não de lama, mas de excrementos e urina. Uma metáfora adocicada que aparece nas obras de Rabelais.</p>
<p><em>Sabemos que os excrementos desempenharam sempre um grande papel no ritual da “festa dos tolos”. No ofício solene celebrado pelo bispo para rir, usava-se na própria Igreja excremento em lugar de incenso. Depois do ofício religioso, o clero tomava lugar em charretes carregadas de excrementos; os padres percorriam as ruas e lançavam-nos sobre o povo que os acompanhava.</em></p>
<p>As maneiras em as alegorias camponesas influenciaram o linguajar da praça se expressa no modo em que o comércio se desenrolava no contexto medieval e renascentista. Havia uma relação muito estreita entre os dias de feira e os dias de festa. E durante estes eventos a comunicação entre as pessoas se transformava em um território próprio de uma liberdade de se expressar muito diferente das formas oficiais presentes na Igreja, na corte ou nas classes mais abastadas.</p>
<p>O clima festivo e cômico nos negócios, principalmente dos vendedores de ervas que prometiam toda e qualquer cura de males se misturava a um linguajar grosseiro e vulgar que fazia menção às partes baixas do corpo. A morte e a vida, temas muito próximos das pessoas, bem como a procura de remédios se relacionam com as necessidades básicas e ao bem estar. Tendo como intermediário o feirante, ou o charlatão que procurava convencer seu freguês. Suas referências como destaca Bakhtin são a paródia, onde o sagrado e o profano convivem lado a lado. Um dos exemplos está no prólogo do primeiro livro, onde Rabelais descreve suas crônicas com a mesma fala de um feirante do século XVI.</p>
<p><em>“Mui ilustres e valorosos heróis, gentis-homens e outros, que de boa vontade vos entregais a todas as ocupações nobres e honoráveis, vós já vistes, lestes e aprendestes as Grandes i inestimáveis crônicas do enorme gigante Gargantua e, verdadeiros fiéis, nelas crestes como se fossem texto da Bíblia ou do Santo Evangelho, e nelas passastes muitas vezes o vosso tempo em companhia de honoráveis damas e donzelas, lendo-lhes belas e longas histórias, quando não tínheis mais nada que dizer, pelo que sois bem dignos de grande louvar e memória sempiterna.”</em></p>
<p>Outro exemplo de manifestação cultural na praça pública é o jogo de apostas, num clima de festa e bufonaria, a disputa pela atenção de seu freguês trás a valorização do que se vende, arriscando pagar um prêmio àqueles que não ficassem satisfeitos com o negócio a ser fechado. Rabelais descreve um desses troféus como um prato de tripas e partes do intestino animal. Como era fácil de deteriorarem eram consumidos no mesmo dia. Por outro lado, as tripas também se relacionavam com o baixo corporal e na mistura das formas sérias com as cômicas levavam a descrição do lavar as tripas com o vinho, sagrado para os cristãos. Se as entranhas eram comidas elas também se relacionavam com dar a vida. Daí os excrementos, ou seja, está próximo da terra que dela tudo nasce ou nela é enterrado quando morre, símbolos de ambivalência, as características do realismo grotesco.</p>
<p>O vocábulo da feira também incluía as injúrias e xingamentos, outro lado dos elogios, seu oposto. Pois aqueles que possuem uma opinião diferente sobre as crônicas são tratados por abusados, predestinadores, impostores e sedutores, termos aplicados aos hereges. Num jogo de palavras parodiando a ideologia oficial da Igreja em tom jocoso. Mas como em sua época o cômico era legalizado, não se condenavam por heresia os bufões e Rabelais pôde escrever tranquilamente que sua crônica vendeu em dois meses mais que a Bíblia em nove anos. No final do prólogo destaca-se os avisos e ameaças onde se revelam os dois lados da mesma moeda.</p>
<p><em>“Portanto, para terminar este prólogo, assim como eu entregarei a cem mil cestos de belos diabos meu corpo e alma, tripas e intestinos, se eu mentir uma única vez em toda a história, da mesma forma, o fogo de Santo Antônio vos queime, o mal-de-terra vos vire, o raio, a úlcera das pernas vos faça mancos, a caganeira vos acometa, a erisipela da foda bem esfregada, tão miúda como pelo de vaca, bem reforçada e vivaz como mercúrio, vos entre pelos fundilhos; e como Sodoma e Gomorra, que tombeis em enxofre, em fogo e em abismo, se não credes firmemente tudo que vos contarei nesta presente crônica.”  </em></p>
<p>Tudo isso se completava com os pregões gritados em praça pública, eles tinham um tom rimado e eram entoados para cada situação específica podiam se relacionar à venda de comida, bebida ou vestimentas. A linguagem oficial também lançava mão dos pregões quando se anunciavam aos gritos novas ordenações e decretos.</p>
<p>A última manifestação da cultura popular na linguagem são os juramentos. Característicos de uma alegoria e embelezamento do modo de falar, quase um acessório, eram combatidos tanto pela Igreja e Estado por considerá-los blasfematórios, bem como pelos humanistas de gabinete que achavam estes termos parasitórios e supérfluos na comunicação, herança de uma Idade Média bárbara.</p>
<p>A temática dos juramentos era um resquício das antigas formas sacras e o despedaçamento do corpo sagrado era o mais comum. Jurava-se pelo corpo de Deus, pelo sangue de Deus, mas também pelas festas e pelas relíquias. Entretanto da mesma forma parodiada entre o profano e o sagrado tínhamos os juramentos dos diferentes órgãos genitais e membros do corpo divino.</p>
<p>Alguns evocam assim São Chouriço (no sentido do falo), outros São Guodegrim (copo grande). Outros invocam “São  Foutin” (fócio), outros “São Vit” (falo). Enfim outros gritam a Santa Mamye, (santa amiga ou puta). Assim, todos os santos cujos nomes a multidão grita, são travestis, seja no plano obsceno, seja na boa mesa.</p>
<p>Deste modo a interpretação popular das formas oficiais passa pela transformação constante dos mais simples valores cultuados pela população e mais básicos ligados à sua existência material. De nada adianta as instituições sérias a impor uma ordem artificial ao longo do tempo, pois o instinto básico de sobrevivência se adapta às mais diversas limitações. A reelaboração de significados nunca deixou de privilegiar os ciclos mais básicos como prazer sexual, alimentação, morte e vida, renovação e crença no futuro melhor para a reprodução da vida, mesmo que os caminhos sejam sinalizados pelo duplo sentido e da ambivalência que o tempo distante só faz dificultar sua compreensão.</p>
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